domingo, 28 de abril de 2013

colheita


Imagine que no futuro os Chorões estarão imensos, velhos contadores de história, da nossa história. Contarão que são filhos dos velhos Chorões do lago e nos lembrarão daquele fim de tarde. Serão robustos, verdes, balançantes, preguiçosos e sentimentais que chorarão folhinhas verdes até que consigam se deitar no chão. Nós dois, do terraço veremos suas copas, e lá longe o vale.  Sentados no chão e encostados um no outro, cada um na sua função, um na piteira e o outro no tombo, conversaremos sobre os muitos anos que se passaram. Falaremos de como o quintal mudou, comentaremos os ipês do vizinho e as roseiras de sua mãe. Depois nos perderemos nas horas rindo de alguma bobagem, e em algum momento, o tempo vai parar e eu vou reparar no seu sorriso, nos dois traços que se formam em baixo dos seus olhos logo acima das bochechas, fitarei seus olhos serrados de felicidade, seus retos e longos cílios que tanto gosto, não me conterei e lhe roubarei um beijo.

                Ontem ,enquanto dormias, eu sentei aos pés da cama e escrevi, escrevi, escrevi, depois apaguei tudo e dormi. Apaguei por que eu queria ter escrito sobre mim, sobre você, sobre nós, e na realidade não estava escrevendo sobre ninguém.  Apenas jogava palavras no Word, palavras que contavam uma história qualquer e não a minha. No conforto e segurança daquele escuro eu queria ter escrito sobre o quanto eu amava estar ali, aos pés da cama e te vendo dormir. Queria escrever o quanto eu amava as dobras no cobertor azul e a luminosidade vinda da janela. O silêncio da casa, a sua respiração. Mas desisti, e não escrevi nada, deitei atrás de você, te abracei, te beijei a nuca, rocei no seu cabelo, encostei a testa na sua cabeça na esperança de ouvir seu sonho. O desejo foi forte, e no silêncio da minha mente eu pude ouvir a sua. Fechei os olhos, vi onde estavas, fui pra junto, dormi.

                Eu queria entender a paz que sinto quando sento aqui nesse banquinho do seu quintal. Só aqui relaxo o suficiente pra deixar meu corpo sentado e minha alma voar. Voar que nem borboleta depois da chuva, feito doida entre as gotas d’agua nas plantas. Minha alma voa de lembrança em lembrança, de sonho em sonho, bebendo os sorrisos no imaginário. Aqui, no quintal, todo fim de tarde é memorável, no horizonte as nuvens se desfazem se transformando em fiapos de algodão pelo céu, que logo mais será o quadro do infinito. E nós teremos passado mais uma tarde aqui, entre as plantinhas que contam a história da sua vida, e agora da minha.

                Os Chorões do futuro serão plantados hoje, as roseiras já estão floridas, as bromélias estão dando brotos, os bonsais estão pedindo cuidados, os mamões em breve serão colhidos e as pitaias também, as primeiras acerolas apareceram... Hoje, eu quis escrever, sobre o amor que sinto por plantarmos juntos. Plantamos de um tudo, plantamos desde sementes a histórias, e de terra entendemos, de sonhos também, por isso confio que todo dia será dia de colheita.

 Hoje, quando formos dormir, te darei outro abraço, outro beijo, pra que amanha, eu colha uma nova história e tenha sempre o que escrever. Amo você.

Selmy Menezes

3 comentários:

  1. Desejo pra voce uma vida repleta de excelentes colheitas, e que as das lágrimas sejam sempre escassas.

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  2. SelmYzinha, gosto de ler você! Beijo

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