terça-feira, 29 de setembro de 2015

Filosofia- um meio para nos inventarmos

Texto apresentado durante a sessão de comunicações do IV Simpósio Antônio Trajano, no dia 29/09/2015- UNESP campus de Marília.
Eu não quero começar a ler meu trabalho sem antes falar do Prof. Trajano, afinal ele foi e é uma figura importantíssima no meu processo de conceituação da Filosofia. Digo processo porque acredito que a Filosofia é um certo tipo de atividade e para que a compreendamos é necessário analisarmos seus movimentos e que ensaiemos os mesmos afim de que a prática nos leve ao entendimento de sua finalidade.
            Pela simplicidade da fala e pela tranquilidade do olhar, o Prof. Trajano transparecia sua relação com a Filosofia, e eu os via como um belo casal de velhos; a imagem que me vinha à cabeça era a desses casais, que para caminhar harmoniosamente se apoiam um no outro de tal forma, que é impossível identificar qual dos dois precisa mais do outro para continuar andando. Ela uma velha charmosa, lúcida, inquieta e ele um velho apaixonado, honesto e simples. Em outras palavras, o que quero dizer é que o Prof. Trajano me ensinou, que ou você convive com a Filosofia, ou nunca irá conhece-la; a mensagem é simples e verdadeira e esse evento é importante porque nos lembra desse preceito. Para participar de um evento que nos convida a falar em primeira pessoa, um evento que nos permite escrever “eu penso...”, é necessário que larguemos das mãos dos nossos amigos filósofos e ensaiemos nossos próprios passos. É uma grande oportunidade, e em como todas desse tipo, o medo é inerente àqueles que se dispõe a aceita-la; afinal caminhar só, no escuro e silêncio... Não é fácil.
Eu não pretendo com esse trabalho insinuar que o trabalho habitualmente feito aqui e nas outras universidades não é útil, de maneira nenhuma, ele é válido e importantíssimo; quero somente valorizar a forma de fazer filosofia que aprendi com o Prof. Trajano, uma forma simples, honesta, e baseada em mim mesma.
            Partir do ponto de que a prática de certa atividade nos trará sabedoria pode soar um tanto como aquela ideia de que o conhecimento é saber fazer algo e hoje em dia somos inclinados à recusar essa tese por acharmos que isso seria voltar ao problema do Teeteto; não é exatamente isso que quero com este trabalho, quero apenas refletir sobre a atividade do filósofo para tentar definir qual é sua produção, e quiçá para que ela serve.
            Quero iniciar minha investigação partindo do ponto de que por milhares de fatores sociais, nos últimos tempos tem-se fomentado a ideia de que filósofo é aquele que trata de questões extremamente complexas e tão abstratas que dificilmente poderiam ser compreendidas pelos “meros mortais” (todos aqueles que não estudam Filosofia) e muito menos úteis para os mesmos; cultiva-se também o pressuposto de que esse trabalho de nada serve para o mundo concreto, o mundo real, dos negócios, do dinheiro; afinal para que servem verdades num mundo de aparências?
            Muitos agora podem estar pensando “Mas obviamente que a filosofia faz algo pelo mundo real, toda a História prova isso- o quanto o curso da Humanidade mudou de direção de acordo com as filosofias de seus períodos.”. Isso é fato, mas então qual a razão de existirem aos montes aqueles que defendem que a Filosofia para nada serve? Dentro e fora das universidades escutamos várias vezes diversas anedotas que no geral dizem que nós filósofos, não fazemos nada da vida e que nosso trabalho nada produz, pensam que não é possível uma simples teoria ser mais forte que toda a brutalidade do mundo real. É comum alguém dizer que nosso trabalho é ficar sentado em algum canto tomando um café, pensando na vida... Quando há uma pessoa parada olhando pro nada logo alguém diz: “está filosofando?”. Muitos podem pensar que “são só piadinhas”, mas eu creio com bastante certeza que as piadas que as pessoas contam, e as piadas das quais as pessoas riem, muito revelam sobre elas próprias. Enfim, muitas coisas me fazem pensar que com o passar dos séculos diminuímos a intensidade da busca pela finalidade da Filosofia, engavetamos essa questão, e com risos respondemos os que dizem que não fazemos nada, que não servimos para nada, que não produzimos nada.
            Para muitos de nós a Filosofia se tornou apenas uma forma de pesquisa, leitura e reprodução de textos filosóficos, mesas redondas, congressos, artigos; uma profissão como todas as outras, com atividades e salários previamente estabelecidos; e o curioso é que juntamente com essa ideia rasa de Filosofia jaz a oculta e insolente ideia de que não atuamos no mundo real. Dessa associação não poderíamos mesmo esperar outro resultado senão essa sociedade na qual vivemos, uma sociedade que nos desmerece e menospreza. E não é por existirem professores de Filosofia com bons salários nas boas universidades que minha tese está falsificada, essas exceções não mostram que a sociedade se importa com a Filosofia, muito pelo contrário, indicam que o espaço da Filosofia está restrito aos poucos que atendem à uma série de exigências. Em nosso sistema não há lugar para a Filosofia, se valemos o que produzimos não valemos nada; na balança nossos artigos são colocados e nosso valor é pesado, valemos alguns quilos de papel.
            Creio que a sociedade reconheceria melhor o valor da Filosofia, se nós, estudantes e professores de Filosofia, conseguíssemos mostrar com mais franqueza a relação que temos com ela. No início deste texto eu afirmei que a Filosofia é uma atividade, e agora eu estou falando acerca de uma relação com essa atividade, estou falando sobre a necessidade de sermos lhanos ao falarmos de Filosofia para que consigamos transparecer sua essência; essência essa que participa dos fundamentos da nossa singularidade humana, um impulso que nos faz questionar a nós mesmos. É necessário que todos entendam que o principal problema da Filosofia somos nós mesmos; o que impulsionou os filósofos a filosofar foi a curiosidade deles sobre eles próprios, o que nos faz estudar Filosofia é a vontade que temos de nos entender.
            Assim a Filosofia aparece como uma atividade que se volta para nós próprios, é um debruçar-se sobre nossos princípios a fim de analisa-los, medi-los, justifica-los, compara-los, é um voltar-se a si mesmo constantemente para encontrar nossas coerências e incoerências, nossas amarras e nossa liberdade.
            Sendo assim, a Filosofia como uma atividade que busca entender a nós mesmos, o que ela produz no mundo concreto? Pode parecer rasa minha explicação, mas é a mais sincera que no momento posso dar: o produto da Filosofia somos nós. Parece um tanto redundante dizer que o objeto e o produto da Filosofia são os mesmos, mas ai está a questão, não são a mesma coisa. Ao iniciarmos uma investigação sobre nós próprios jamais seremos os mesmos ao fim de tal investigação. E então a Filosofia passa a ocupar um lugar especial dentre as outras áreas do conhecimento, pois não só nos leva a investigar a nós próprios como também nos permite que nos inventemos e reinventemos enquanto estivermos vivos; há um quê artístico nessa atividade, um perfil estético, ela exige mais do que apenas interpretação e apreensão de dados, ela requer certo nível de criatividade, uma vontade de não somente entender, mas de recriar, criar novamente, renovar ideias, padrões, pessoas.

            Para concluirmos, já pensamos sobre o que é a Filosofia, o que ela produz, e agora nossa pergunta final, para que ela serve? E eu concluo, ela serve para mudar a História. E se afirmei que o produto da Filosofia somos nós mesmos e sua função é mudar a História, é porque acredito que nossa função é mudar a História.  A Filosofia não tem outro poder senão o de mudar a nós próprios e isso já é tudo.

Homenagem ao professor Antônio Trajano.

Texto apresentado durante a cerimônia de inauguração da placa de homenagem ao professor Antonio Trajano (29/09/41-11/09/2014), no Departamento de Filosofia da UNESP de Marília, às 10h do dia 29/09/2015.

Tranquilidade e simplicidade eram características marcantes na personalidade do Trajano, e isso transmitia a todos muita calma, e calma é um sentimento um tanto quanto raro, principalmente no ambiente universitário. Eu mesma costumo já acordar um bocado ansiosa, a vida acadêmica não é tão “tranquila” como eu pensava que seria. Antes de entrar na faculdade eu acreditava que seria fácil, eu continuaria estudando (como eu já estudava), cuidaria da minha casa (deixaria tudo arrumado e limpo sempre, para estudar em paz), e fora isso teria uma brilhante vida social cheia de amigos, festas e festinhas, minha vida seria equilibrada entre obrigações e prazeres, tudo enfim seria bom e descomplicado.
Essa feliz ilusão não se manteve nem por um mês. Eu não entendia o que lia; a casa era um caos; e minha vida social não era assim aquele mar de experiências agradáveis. Não foi fácil aprender a estudar de verdade, não foi fácil aprender a cuidar de mim, e da casa até hoje eu não aprendi direito; mas a questão é que nesse processo de amadurecimento o Trajano foi para mim, e de certa forma ainda é, uma figura importantíssima; em meio aquele conturbado momento da minha vida que nada tinha de singular ou especial, afinal eu não era a única naquela realidade, bastava ouvir qualquer outro estudante durante mais de dez minutos para ver que a confusão psicológica e sentimental era regra e não exceção; o Trajano representava um porto seguro para todos nós, ele nos ouvia, nos consolava, abraçava, ele até nos visitava! Era um amigo.
Ele foi sim o primeiro professor que olhou para mim como alguém que verdadeiramente poderia filosofar, me considerou importante, leu meu texto que bem poderia ter sido escrito por uma criança e me respeitou mesmo assim, foi gentil, desceu do alto da sua intelectualidade até me alcançar, fez-se compreensível, foi um verdadeiro mestre. Um verdadeiro mestre sabe subir e descer as escadarias da sabedoria, só assim ele é capaz de alcançar os que estão nos primeiros degraus.
O Prof Trajano foi um grande exemplo, pois era com alegria que ele encarava nossa infantilidade, e com muito entusiasmo nossa jovialidade! Ele sabia fazer do conhecimento uma fonte de prazer, brincava com as palavras até entendermos que todo problema é grande, porque nós somos pequenos. O Trajano sabia amenizar nossas dores de vida acadêmica, mas não pensem que era massageando nossos egos, porque não, era um tratamento mais parecido com cuidados de avô; nossas feridas sentimentais e intelectuais eram tratadas com muito respeito e paciência, nenhum erro era absurdo ou ridículo, imperdoável ou incorrigível; tudo era encarado com naturalidade, os erros gramaticais, os problemas da vida, as problemáticas filosóficas...e então a filosofia se tornava possível, deixava de ser um monstro para ser uma elegante senhora cheia de charme.
            A filosofia ensinada pelo Trajano em suas aulas, em suas tutorias e em seu comportamento, era uma filosofia viva; ele nos mostrava que filosofia é algo para ser vivido e não simplesmente compreendido; todos que tiveram a grande oportunidade de conviver e aprender com o Prof. Trajano sabem do que estou falando, seu método de ensino era nos perguntar “o que você pensa disso?”, e não existe questão mais complexa do que essa para quem estuda filosofia, principalmente depois de uns meses na graduação quando tudo em que acreditamos começa a se dissolver como açúcar na água. O Trajano gostava de nos oferecer uma tese e desenvolver conosco uma conversa até que nós próprios criássemos uma opinião minimamente consistente sobre o tema, definitivamente não há disciplina mais rica e proveitosa que a Tutoria, uma cadeira criada exclusivamente para que o estudante tenha voz e para que essa voz seja escutada, considerada e discutida. O Prof Trajano era respeitável porque acima de tudo ele era respeitoso, lia nossos textos com muita seriedade e sabia nos corrigir com muita delicadeza. Com ele aprendemos a ver a filosofia como um menu infinito de questões complexas, e o trabalho do filósofo é escolher dentre elas a pergunta que mais o comove, a dúvida que mais o instiga- e degusta-la.
            Creio que o maior legado do Prof Trajano, além claro da implementação das tutorias aqui na UNESP, foi a filosofia que ele disseminou nesse campus, uma filosofia que se faz com as próprias mãos, ou melhor, com as próprias palavras; é bastante conhecida a personalidade dos estudantes de filosofia da UNESP, e não estou falando dos nossos tão bem conceituados padrões estéticos e nem do nosso extremo bom humor e ânimo, estou falando da nossa conhecida capacidade e vontade de expressarmos nossas opiniões, somos corajosos, somos confiantes, e essa segurança toda é sim a bela herança que o Trajano nos deixou, nos sentimos confiantes porque sentimos crescer dentro de nós a semente filosófica que foi plantada em nossas mentes, sentimos o poder de suas raízes crescendo, sentimos a força de seus troncos. Não há como negar, o Trajano foi um tão grande professor que desenvolveu em todos nós muito mais que a capacidade de sermos bons alunos, ele nos mostrou como sermos mestres de nós mesmos, isto é, aprendemos a criticar a nós próprios, aprendemos não somente a aceitar nossos erros como também a caça-los, aprendemos a encarar nossos trabalhos com honestidade, sem tristeza diante de nossos erros e sem presunção diante de nossos acertos. O Trajano nos ensinou a ter iniciativa, cuidado e paciência, uma fórmula para nos sentirmos calmos e continuarmos essa árdua caminhada nessa trilha que ninguém sabe ao certo onde chega; jamais saberemos se agora o Trajano está gozando de todas as respostas ou de um completo silêncio, ambas as opções parecem boas, afinal é sabido que a atividade filosófica é bastante fatigante, um pouco frustrante também, pois é um encantamento pelo inalcançável, pelo inefável, é um trabalho constante pela aceitação da nossa ignorância, aí está a sabedoria.
            O Prof Trajano desenvolveu um trabalho memorável ao longo de sua vida, as mudanças provocadas por ele nessa universidade e agora essa placa oficializam essa afirmação, contudo o maior marco do nosso tão querido professor foi deixado em nós próprios, em seus alunos, seus amigos, um grande respeito e amor ao conhecimento e à vida.

            Eu me sinto extremamente honrada em ter sido convidada para participar dessa homenagem, mas tenho certeza que eu jamais conseguiria aqui expressar com fidelidade o sentimento que todos nós, estudantes, tínhamos pelo Trajano, pois a relação que ele estabelecia com cada um de nós era de amizade e por mais que eu garimpe palavras no meu vocabulário nenhum conceito é plenamente eficaz para simbolizar esse tipo laço. Muito obrigada pela oportunidade, espero ter ao menos conseguido expor uma parcela da grande admiração que todos sentíamos pelo Prof Trajano, obrigada.