terça-feira, 29 de setembro de 2015

Homenagem ao professor Antônio Trajano.

Texto apresentado durante a cerimônia de inauguração da placa de homenagem ao professor Antonio Trajano (29/09/41-11/09/2014), no Departamento de Filosofia da UNESP de Marília, às 10h do dia 29/09/2015.

Tranquilidade e simplicidade eram características marcantes na personalidade do Trajano, e isso transmitia a todos muita calma, e calma é um sentimento um tanto quanto raro, principalmente no ambiente universitário. Eu mesma costumo já acordar um bocado ansiosa, a vida acadêmica não é tão “tranquila” como eu pensava que seria. Antes de entrar na faculdade eu acreditava que seria fácil, eu continuaria estudando (como eu já estudava), cuidaria da minha casa (deixaria tudo arrumado e limpo sempre, para estudar em paz), e fora isso teria uma brilhante vida social cheia de amigos, festas e festinhas, minha vida seria equilibrada entre obrigações e prazeres, tudo enfim seria bom e descomplicado.
Essa feliz ilusão não se manteve nem por um mês. Eu não entendia o que lia; a casa era um caos; e minha vida social não era assim aquele mar de experiências agradáveis. Não foi fácil aprender a estudar de verdade, não foi fácil aprender a cuidar de mim, e da casa até hoje eu não aprendi direito; mas a questão é que nesse processo de amadurecimento o Trajano foi para mim, e de certa forma ainda é, uma figura importantíssima; em meio aquele conturbado momento da minha vida que nada tinha de singular ou especial, afinal eu não era a única naquela realidade, bastava ouvir qualquer outro estudante durante mais de dez minutos para ver que a confusão psicológica e sentimental era regra e não exceção; o Trajano representava um porto seguro para todos nós, ele nos ouvia, nos consolava, abraçava, ele até nos visitava! Era um amigo.
Ele foi sim o primeiro professor que olhou para mim como alguém que verdadeiramente poderia filosofar, me considerou importante, leu meu texto que bem poderia ter sido escrito por uma criança e me respeitou mesmo assim, foi gentil, desceu do alto da sua intelectualidade até me alcançar, fez-se compreensível, foi um verdadeiro mestre. Um verdadeiro mestre sabe subir e descer as escadarias da sabedoria, só assim ele é capaz de alcançar os que estão nos primeiros degraus.
O Prof Trajano foi um grande exemplo, pois era com alegria que ele encarava nossa infantilidade, e com muito entusiasmo nossa jovialidade! Ele sabia fazer do conhecimento uma fonte de prazer, brincava com as palavras até entendermos que todo problema é grande, porque nós somos pequenos. O Trajano sabia amenizar nossas dores de vida acadêmica, mas não pensem que era massageando nossos egos, porque não, era um tratamento mais parecido com cuidados de avô; nossas feridas sentimentais e intelectuais eram tratadas com muito respeito e paciência, nenhum erro era absurdo ou ridículo, imperdoável ou incorrigível; tudo era encarado com naturalidade, os erros gramaticais, os problemas da vida, as problemáticas filosóficas...e então a filosofia se tornava possível, deixava de ser um monstro para ser uma elegante senhora cheia de charme.
            A filosofia ensinada pelo Trajano em suas aulas, em suas tutorias e em seu comportamento, era uma filosofia viva; ele nos mostrava que filosofia é algo para ser vivido e não simplesmente compreendido; todos que tiveram a grande oportunidade de conviver e aprender com o Prof. Trajano sabem do que estou falando, seu método de ensino era nos perguntar “o que você pensa disso?”, e não existe questão mais complexa do que essa para quem estuda filosofia, principalmente depois de uns meses na graduação quando tudo em que acreditamos começa a se dissolver como açúcar na água. O Trajano gostava de nos oferecer uma tese e desenvolver conosco uma conversa até que nós próprios criássemos uma opinião minimamente consistente sobre o tema, definitivamente não há disciplina mais rica e proveitosa que a Tutoria, uma cadeira criada exclusivamente para que o estudante tenha voz e para que essa voz seja escutada, considerada e discutida. O Prof Trajano era respeitável porque acima de tudo ele era respeitoso, lia nossos textos com muita seriedade e sabia nos corrigir com muita delicadeza. Com ele aprendemos a ver a filosofia como um menu infinito de questões complexas, e o trabalho do filósofo é escolher dentre elas a pergunta que mais o comove, a dúvida que mais o instiga- e degusta-la.
            Creio que o maior legado do Prof Trajano, além claro da implementação das tutorias aqui na UNESP, foi a filosofia que ele disseminou nesse campus, uma filosofia que se faz com as próprias mãos, ou melhor, com as próprias palavras; é bastante conhecida a personalidade dos estudantes de filosofia da UNESP, e não estou falando dos nossos tão bem conceituados padrões estéticos e nem do nosso extremo bom humor e ânimo, estou falando da nossa conhecida capacidade e vontade de expressarmos nossas opiniões, somos corajosos, somos confiantes, e essa segurança toda é sim a bela herança que o Trajano nos deixou, nos sentimos confiantes porque sentimos crescer dentro de nós a semente filosófica que foi plantada em nossas mentes, sentimos o poder de suas raízes crescendo, sentimos a força de seus troncos. Não há como negar, o Trajano foi um tão grande professor que desenvolveu em todos nós muito mais que a capacidade de sermos bons alunos, ele nos mostrou como sermos mestres de nós mesmos, isto é, aprendemos a criticar a nós próprios, aprendemos não somente a aceitar nossos erros como também a caça-los, aprendemos a encarar nossos trabalhos com honestidade, sem tristeza diante de nossos erros e sem presunção diante de nossos acertos. O Trajano nos ensinou a ter iniciativa, cuidado e paciência, uma fórmula para nos sentirmos calmos e continuarmos essa árdua caminhada nessa trilha que ninguém sabe ao certo onde chega; jamais saberemos se agora o Trajano está gozando de todas as respostas ou de um completo silêncio, ambas as opções parecem boas, afinal é sabido que a atividade filosófica é bastante fatigante, um pouco frustrante também, pois é um encantamento pelo inalcançável, pelo inefável, é um trabalho constante pela aceitação da nossa ignorância, aí está a sabedoria.
            O Prof Trajano desenvolveu um trabalho memorável ao longo de sua vida, as mudanças provocadas por ele nessa universidade e agora essa placa oficializam essa afirmação, contudo o maior marco do nosso tão querido professor foi deixado em nós próprios, em seus alunos, seus amigos, um grande respeito e amor ao conhecimento e à vida.

            Eu me sinto extremamente honrada em ter sido convidada para participar dessa homenagem, mas tenho certeza que eu jamais conseguiria aqui expressar com fidelidade o sentimento que todos nós, estudantes, tínhamos pelo Trajano, pois a relação que ele estabelecia com cada um de nós era de amizade e por mais que eu garimpe palavras no meu vocabulário nenhum conceito é plenamente eficaz para simbolizar esse tipo laço. Muito obrigada pela oportunidade, espero ter ao menos conseguido expor uma parcela da grande admiração que todos sentíamos pelo Prof Trajano, obrigada.

2 comentários:

  1. que belo texto, que linda homenagem ao saudoso Trajano, era uma pessoa excepcional, muitas saudades dele!!

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