sábado, 20 de maio de 2017

Sobre passos.

Escrevi um texto quando entrei na faculdade, registrei em algumas linhas a meninice que vivia. Ontem me formei, acho que o fato merece umas letras...

O plano era colar grau na sala do diretor, cerimônia simples, umas palavras bonitas e uns juramentos estranhos. Mas as circunstâncias são como as bibliotecas, sempre há algo escondido. A família da minha melhor amiga me presenteou com a oportunidade de participar da formatura. O capelo virou realidade, a cerimônia estava linda, a atmosfera cheirava a alívio, um mar de cumprimentos e sorrisos. Planejei não chorar, mas durante a entrega dos canudos, uma moça levantou o tubo vermelho e gritou “É para você mãe! ”, chorei...

Chamaram meu nome, caminhei feliz e emocionada em direção à grande mesa, o diretor disse alguma coisa enquanto colocava em mim um chapeuzinho verde cheio de franjinhas; meu paraninfo, vice-diretor, me deu o canudo e me disse palavras gentis enquanto me dava um abraço; pose para as fotos. Aí apareceu meu amigo... Marcus me abraçou e eu senti sair das minhas costas um peso enorme, chorei...

Fim de cerimônia, uma aluna se levantou e humanizou o ritual. Luana me fez chorar de novo... falou por todos nós. Eu senti falta da minha família, vivemos um caso de amor à distância; eu não vejo meus pais há mais de quatro anos. Como é doloroso o desenvolvimento, deixar aquilo que nos envolve. Crescer é um tipo de abandono. Cerimônia encerrada, todos se levantam e começa uma sessão infindável de abraços e fotos. Luciana veio me parabenizar, Luciana é mãe da minha melhor amiga, me abraçou como se eu fosse sua filha, como se fosse minha mãe, e eu chorei, chorei muito, solucei. Ela entendeu perfeitamente o tamanho do meu vazio...

Tenho ao meu lado pessoas maravilhosas, a vida foi boa comigo até agora e eu sou muito grata por isso. Contudo, se enraíza em mim uma solidão, um silêncio maciço. Ser sozinho é não ter onde sentar dentro de si. Me encontro mais fora de mim...

Estou em Marília desde 2011, não sei dizer quantas vezes me senti perdida, frágil e incapaz. De mãos dadas com o tempo, a vida parece não se preocupar. É como se fossemos flores de pântano, como se da lama nos alimentássemos. Cada desgraça um passo, cada conquista também.

Me formei em confusão psicológica e agora estou fazendo uma Pós em lacunas existenciais... A filosofia tem um gosto oscilante, como aqueles que sentimos pelo cheiro. Como quando tomamos chá ou respiramos fundo em dias chuvosos, a filosofia tem gosto de cheiro, é isso. É beleza de fresta, fissura, é distância. É o cheiro do vazio, do fundo. Última gota no fundo do copo.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

No fundo do copo.

Somos nossos pensamentos mais íntimos e pessoais, nossos medos e tristezas, sonhos e alegrias. Somos nossas línguas e dentes, nossos fios de cabelo na cabeça e no ralo, somos o perfume bom de nossas peles e também o cheiro horrível do nosso cansaço e maldade. Somos nossos corpos, riso e choro, gemido e dor. Quando nos vimos pela última vez?

Todo rompimento é doloroso. A vida surge do sofrimento e de um aparente caos e confirma suas origens até o seu fim. Cada dia um parto - a vida nos parindo - e sentimos toda a dor, o sangue, a pulsação...como num recém-nascido, o ar nos queima os brônquios e a luz os olhos. O conhecimento dói, digamos assim. Nos conhecemos e por isso dói.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Filosofia- um meio para nos inventarmos

Texto apresentado durante a sessão de comunicações do IV Simpósio Antônio Trajano, no dia 29/09/2015- UNESP campus de Marília.
Eu não quero começar a ler meu trabalho sem antes falar do Prof. Trajano, afinal ele foi e é uma figura importantíssima no meu processo de conceituação da Filosofia. Digo processo porque acredito que a Filosofia é um certo tipo de atividade e para que a compreendamos é necessário analisarmos seus movimentos e que ensaiemos os mesmos afim de que a prática nos leve ao entendimento de sua finalidade.
            Pela simplicidade da fala e pela tranquilidade do olhar, o Prof. Trajano transparecia sua relação com a Filosofia, e eu os via como um belo casal de velhos; a imagem que me vinha à cabeça era a desses casais, que para caminhar harmoniosamente se apoiam um no outro de tal forma, que é impossível identificar qual dos dois precisa mais do outro para continuar andando. Ela uma velha charmosa, lúcida, inquieta e ele um velho apaixonado, honesto e simples. Em outras palavras, o que quero dizer é que o Prof. Trajano me ensinou, que ou você convive com a Filosofia, ou nunca irá conhece-la; a mensagem é simples e verdadeira e esse evento é importante porque nos lembra desse preceito. Para participar de um evento que nos convida a falar em primeira pessoa, um evento que nos permite escrever “eu penso...”, é necessário que larguemos das mãos dos nossos amigos filósofos e ensaiemos nossos próprios passos. É uma grande oportunidade, e em como todas desse tipo, o medo é inerente àqueles que se dispõe a aceita-la; afinal caminhar só, no escuro e silêncio... Não é fácil.
Eu não pretendo com esse trabalho insinuar que o trabalho habitualmente feito aqui e nas outras universidades não é útil, de maneira nenhuma, ele é válido e importantíssimo; quero somente valorizar a forma de fazer filosofia que aprendi com o Prof. Trajano, uma forma simples, honesta, e baseada em mim mesma.
            Partir do ponto de que a prática de certa atividade nos trará sabedoria pode soar um tanto como aquela ideia de que o conhecimento é saber fazer algo e hoje em dia somos inclinados à recusar essa tese por acharmos que isso seria voltar ao problema do Teeteto; não é exatamente isso que quero com este trabalho, quero apenas refletir sobre a atividade do filósofo para tentar definir qual é sua produção, e quiçá para que ela serve.
            Quero iniciar minha investigação partindo do ponto de que por milhares de fatores sociais, nos últimos tempos tem-se fomentado a ideia de que filósofo é aquele que trata de questões extremamente complexas e tão abstratas que dificilmente poderiam ser compreendidas pelos “meros mortais” (todos aqueles que não estudam Filosofia) e muito menos úteis para os mesmos; cultiva-se também o pressuposto de que esse trabalho de nada serve para o mundo concreto, o mundo real, dos negócios, do dinheiro; afinal para que servem verdades num mundo de aparências?
            Muitos agora podem estar pensando “Mas obviamente que a filosofia faz algo pelo mundo real, toda a História prova isso- o quanto o curso da Humanidade mudou de direção de acordo com as filosofias de seus períodos.”. Isso é fato, mas então qual a razão de existirem aos montes aqueles que defendem que a Filosofia para nada serve? Dentro e fora das universidades escutamos várias vezes diversas anedotas que no geral dizem que nós filósofos, não fazemos nada da vida e que nosso trabalho nada produz, pensam que não é possível uma simples teoria ser mais forte que toda a brutalidade do mundo real. É comum alguém dizer que nosso trabalho é ficar sentado em algum canto tomando um café, pensando na vida... Quando há uma pessoa parada olhando pro nada logo alguém diz: “está filosofando?”. Muitos podem pensar que “são só piadinhas”, mas eu creio com bastante certeza que as piadas que as pessoas contam, e as piadas das quais as pessoas riem, muito revelam sobre elas próprias. Enfim, muitas coisas me fazem pensar que com o passar dos séculos diminuímos a intensidade da busca pela finalidade da Filosofia, engavetamos essa questão, e com risos respondemos os que dizem que não fazemos nada, que não servimos para nada, que não produzimos nada.
            Para muitos de nós a Filosofia se tornou apenas uma forma de pesquisa, leitura e reprodução de textos filosóficos, mesas redondas, congressos, artigos; uma profissão como todas as outras, com atividades e salários previamente estabelecidos; e o curioso é que juntamente com essa ideia rasa de Filosofia jaz a oculta e insolente ideia de que não atuamos no mundo real. Dessa associação não poderíamos mesmo esperar outro resultado senão essa sociedade na qual vivemos, uma sociedade que nos desmerece e menospreza. E não é por existirem professores de Filosofia com bons salários nas boas universidades que minha tese está falsificada, essas exceções não mostram que a sociedade se importa com a Filosofia, muito pelo contrário, indicam que o espaço da Filosofia está restrito aos poucos que atendem à uma série de exigências. Em nosso sistema não há lugar para a Filosofia, se valemos o que produzimos não valemos nada; na balança nossos artigos são colocados e nosso valor é pesado, valemos alguns quilos de papel.
            Creio que a sociedade reconheceria melhor o valor da Filosofia, se nós, estudantes e professores de Filosofia, conseguíssemos mostrar com mais franqueza a relação que temos com ela. No início deste texto eu afirmei que a Filosofia é uma atividade, e agora eu estou falando acerca de uma relação com essa atividade, estou falando sobre a necessidade de sermos lhanos ao falarmos de Filosofia para que consigamos transparecer sua essência; essência essa que participa dos fundamentos da nossa singularidade humana, um impulso que nos faz questionar a nós mesmos. É necessário que todos entendam que o principal problema da Filosofia somos nós mesmos; o que impulsionou os filósofos a filosofar foi a curiosidade deles sobre eles próprios, o que nos faz estudar Filosofia é a vontade que temos de nos entender.
            Assim a Filosofia aparece como uma atividade que se volta para nós próprios, é um debruçar-se sobre nossos princípios a fim de analisa-los, medi-los, justifica-los, compara-los, é um voltar-se a si mesmo constantemente para encontrar nossas coerências e incoerências, nossas amarras e nossa liberdade.
            Sendo assim, a Filosofia como uma atividade que busca entender a nós mesmos, o que ela produz no mundo concreto? Pode parecer rasa minha explicação, mas é a mais sincera que no momento posso dar: o produto da Filosofia somos nós. Parece um tanto redundante dizer que o objeto e o produto da Filosofia são os mesmos, mas ai está a questão, não são a mesma coisa. Ao iniciarmos uma investigação sobre nós próprios jamais seremos os mesmos ao fim de tal investigação. E então a Filosofia passa a ocupar um lugar especial dentre as outras áreas do conhecimento, pois não só nos leva a investigar a nós próprios como também nos permite que nos inventemos e reinventemos enquanto estivermos vivos; há um quê artístico nessa atividade, um perfil estético, ela exige mais do que apenas interpretação e apreensão de dados, ela requer certo nível de criatividade, uma vontade de não somente entender, mas de recriar, criar novamente, renovar ideias, padrões, pessoas.

            Para concluirmos, já pensamos sobre o que é a Filosofia, o que ela produz, e agora nossa pergunta final, para que ela serve? E eu concluo, ela serve para mudar a História. E se afirmei que o produto da Filosofia somos nós mesmos e sua função é mudar a História, é porque acredito que nossa função é mudar a História.  A Filosofia não tem outro poder senão o de mudar a nós próprios e isso já é tudo.