segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Bom dia


É muito estranho. Todo mundo da casa acordado e barulhando pela casa, menos nós. Você está dormindo, e eu escrevendo. Está na hora do almoço e nós estamos brincando de estarmos ainda na alta madrugada. Eu faço silêncio, penso e fumo; você também faz silêncio, sonha e descansa.
                Tudo é muito estranho. Vivemos pelo futuro. Às vezes é tão tamanho o empenho que esquecemos o hoje. O futuro é o que nos aproxima do fim e é para lá que caminhamos todos os dias, num misto de medo e ansiedade, aos passos rápidos do ponteiro que marca os segundos. Incansáveis, coração e ponteiro de mãos dadas a caminho do fim, do futuro. Inevitável, amado e odiado fim.
                Não é no futuro que está o que quero. O que quero, existe no presente. O futuro é inevitável, obrigação. É para lá que sempre fomos, é para lá que sempre iremos. Deixemos que o futuro regue suas plantas, reguemos as nossas.
                Minhas flores não são as que plantarei no futuro, são as que tenho de regar hoje. A família que amo não é aquela que terá restado, é a que me acompanha hoje. O marido que amo não será nem foi aquele, é este. É uma questão que envolve a necessidade de assumir o que somos. Não somos o que seremos, somos os que somos e devemos nos amar.
                A felicidade consiste em saber amar o presente, amar o dia e quem hoje está nele. Amar a mesma cama, o mesmo cobertor. Amar a luminária, o cavalete e o desenho que nele está. O criado mudo, o guarda-roupa arrumado, os livros. A chuva que está caindo e você que acordou.

Selmy Menezes.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Arte e o despertar filosofico



A principio eram apenas desenhos, depois de uns anos viraram Arte. Antes eram ideias, e tornaram-se Filosofia. Qual a diferença do coração de um poeta? Ou dos olhos de um pensador? Nasceram estes já com tais inclinações? Ou foram conduzidos às mesmas? O menino nasceu artista, ou aprendeu a ser? Quando um pensamento passa a ser Filosofia? O Homem, por ventura, aprende a ser um pensador? Se estes, artistas e filósofos, por Deus nascem com esses saberes, quem sou eu para questionar? Porém, se não for alguma divindade, quem os ensinou tais coisas? Nesses singulares processos de educação, é possível um educador? Algo ou alguém que conduza o aprendizado de tais grandezas?

Eu aprendi a gostar de músicas clássicas ao absorver o amor de meu pai por elas. Eu aprendi a gostar dos livros por achar bonita a cena de minha mãe lendo deitada na rede. Meu pai tinha um amigo pintor, e eles conversavam sobre quadros e sobre o passado. Paulo, o amigo, contava de quando era pequeno e morava no Sul, contava do trilho de trem que passava pertinho da casa, quando o trem passava sempre apressado, a casa tremia. Eu imaginava a casinha tremendo e Paulo ainda menino. Paulo era velho, brilhante e egocêntrico (como todo bom artista! Dizia meu pai). Os melhores quadros de Paulo de Andrade são os dos trens, maravilhosas imagens à tinta óleo, vagões, estações, passageiros, trilhos... Eu me sentava à mesa junto às conversas dos dois, e mesmo sem nada entender das conversas em si eu gostava de ficar ali, gostava dos tons das vozes, das palavras bonitas, dos olhares de seriedade e do cheiro de café. Certa vez, ao mesmo tempo em que conversava com meu pai, Paulo, num guardanapo me ensinou a desenhar um gato. Poucas e precisas linhas e surgiu um gato, eu fiquei encantada. E o amigo do meu pai virou amigo meu também.

Em cada visita, uma aula e um presente. Paulo me apresentou as tintas, os pinceis, os desenhos à carvão, argilas e telas... E me tornou uma amiga do que ele chamava de “Arte”.

Meu pai, Jether, ao notar meu interesse, passou a me presentear com massinhas de modelar, pincéis, guaches e telas. Sentava-se comigo no chão para desenhar com o giz de cera, me ensinava a misturar as cores e a ser suave com o pincel e o lápis. Quando eu terminava um desenho, a opinião de mais valia era a dele. Ele não era como as outras pessoas, que ao olharem meus desenhos de criança diziam “Que bonitinho! Muito bem!” não. Jether pegava no papel, olhava de perto, de longe, encarava o desenho com as sobrancelhas franzidas e depois conversava comigo criticando meu desenho, hora positiva, hora negativamente. Jether contava da existência de outros artistas, falava bem de Monet e mal de Picasso, e mostrava quadros dos dois e expunha suas razões. Raramente citava Van Gogh e o que mais ele dizia era “todos tem um mestre, escolha o seu”.

Paulo gostaria de me ver formada em Artes plásticas, mas morreu antes mesmo de me ver concluir o ensino médio. Eu decidi não ir ao velório, não queria algo ruim pra lembrar, e eu também não acreditava que aquilo seria de fato uma despedida. Guardei a lembrança da ultima vez que o vi, o velhinho rosado pelo frio a falar de esculturas enquanto tomava chá. E que na mesma noite, vivo, despediu-se de mim.

E a ausência de meu amigo me deu saudade foi da Arte. E a Arte se tornou pra mim uma saudade constante de tudo que é bonito. Como se a beleza fosse algo fugaz, e a arte algo que prolonga a vida do que é belo. Como o quadro de Monet, que deu mais centenas de anos para aquele pôr do sol, que no mundo durou apenas alguns minutos. (Álamo, 1890)

E tentando entender a Arte eu descobri a Filosofia. Digo que a Arte me levou à Filosofia por que ambas são a tentativa de dar voz ao que aparentemente não é nada, as emoções e os pensamentos.

A dificuldade de pensar sobre algo que não existe foi para mim mais do que uma aparente loucura, foi uma paixão; aquele misto de amor e ódio pela mesma coisa. E este algo está sempre a alguns passos de ser

alcançado, distante o suficiente para que eu não seja capaz de concluir se é bonito ou feio, feliz ou triste, se é meu ou se é de todo mundo, se é Filosofia ou se é Arte.

O casamento aconteceu, um triângulo não muito amoroso entre eu, a Arte e a Filosofia, brigamos e nos amamos como toda boa família e raramente entramos num acordo sobre o que nos liga nesse misterioso universo. Mas vivemos juntas e numa relativa paz.

Decidi estudar Filosofia para melhorar meu vinculo com a Arte, pois acreditava que a Filosofia era um tipo de arte, como uma arte de pensar. Em vez de cores, palavras, em vez de quadros, ideias.

Por razões cósmicas ou meramente sociais me concederam o cargo de Professora de Filosofia, mesmo estando eu no segundo ano de faculdade. Hoje em dia dou aulas para o ensino médio, meus alunos estão numa faixa etária de quinze a dezoito anos, e oitenta por cento mal sabe ler. Vi-me na maior de dificuldade que já tive, ensinar o que não existe e ainda por cima dar notas baixas para quem não entendeu, como se tivessem culpa. E a maior questão que já sofri se formou negra como uma nuvem em cima de mim: Como é possível ensinar a Filosofia? Não é por não saberem ler que não podem apreender a Filosofia, Filosofia é sabedoria e não ciência. Já conheci velhinhos sábios e analfabetos ao mesmo tempo.



E dessa forma, mais do que o tema de uma possível pesquisa na graduação, é atualmente um problema pessoal: Como é possível despertar a Filosofia na mente de alguém? Como suscitar amor e ódio pelo desconhecido, ao ponto de entenderem o que é amar a sabedoria?

sábado, 8 de junho de 2013

Chorar o mundo.

         Não podemos deixar que o mundo morra, sem nem ao menos chorarmos por ele.
        Deus está em todo lugar. Está nas sementes que brotam e nas árvores que morrem; nos que morrem, nos matam e nos que nascem; está em tudo que é vivo e em tudo que espera; nas pedras; na terra; no planeta e nos planetas.
       Deus está em todos os que pedem e nos que agradecem, nos que riem e nos que choram, está na alegria e também na dor. Deus está em tudo, Deus é tudo. E Deus é grande, do tamanho de tudo que existe.
      Ontem eu chorei, e chorei pelo mundo, como se este fosse um doente que não se deu conta de sua própria ferida. Como uma gangrena nas costas de um cego, ele não a sente e nem a enxerga, ele não sofre e não a trata.
      E foi como se eu tivesse me dado conta de um pequeno ponto podre no meio do mundo. Um ponto podre a apodrecer tudo a sua volta. Doença que está a engolir florestas, animais, pessoas, o ar, a água...
      E eu chorei doído, triste, chorei sem dar a hora, nem o local, e nem o culpado da minha dor. Chorei humildemente pelo mundo, sem pretensões de curá-lo, sem nem sequer a esperança de ser escutada. E então surpreendentemente tive a forte sensação, de que Deus me ouviu. Como se Ele houvesse sentido minha dor. Porque minha dor cobriu o mundo, minha dor chorou no mundo, e Deus que está no mundo, chorou também. Chorou por quem recebe e por quem dispara as tiros, chorou pelos que lutam e pelos que fogem, Deus chorou comigo pelos que tentam e pelos que desistem, pelos que sabem e os que não sabem, chorou por mim, por todos, por tudo. E dividindo minha dor, me aliviou, e eu pude dormir.

terça-feira, 30 de abril de 2013

No vale.

Novamente sentada no vale embaixo de uma árvore, observo longe, lá na estrada, uma queimada. Ouço daqui o mato estalando, o fogo crepitando, e eu penso "quem chamará o bombeiro?" poderia ser eu mesma. Mas continuarei aqui sentada, só olhando, e em algum momento o fogo vai cansar.
 O sol passa por entre as folhas e lambe a minha cara, o vento dança e faz um carinho no meu cabelo, e eu abraço minhas pernas, felho os olhos, e escuto tudo.
 A fumaça como uma nuvem já cobriu a estrada, os carros surgem, desaparecem e reaparecem mais a frente. A nuvem devagarinho está a engolir um pedaço do vale. Os cavalos saíram da reta, foram pastar noutro canto.
 Noutro lado do vale, absolutamente protegidos da queimada, dois pedreiros constroem uma casa, e no exato instante estão a cavar.
 Quem será que iniciou a queimada? Ou não foi ninguem? Quem será que vai morar naquela casa? E o nome dos pedreiros? E no fundo, o que me importa? Qual será a razão de eu me sentir tão bem olhando tudo de longe? Aqui, sentada no alto do vale, olhando a cidade distante, o topo nos prédios e as antenas, e lá embaixo do vale, como que noutra realidade, uma fazenda. Quem será que mora lá?
 Daqui o mundo parece ser tão inofencivo, a goiabeira me dá sombra, o vento balança as quiçaças, e elas balançam bem calmas como se não ligassem pra nada, mal sabem que um dia alguem bem idiota pode vir aqui com um isqueiro e acabar com tudo. Um pezinho de alecrim do campo parece mais feliz que o resto do pasto, ele treme todo agoniadinho como se estivesse rindo.
 Eu não consigo ficar longe dessa paz, aqui eu não me incomodo com a existencia das coisas, somente assisto.
 Aqui eu não me sinto nem culpada pelo que acontece lá longe, muito menos a pessoa que vai salvar tudo aquilo, aqui eu sou só uma menina sentada a sombra de uma goiabeira, sou só uma coisa que parou pra descansar.
 No cé, um enorme pássaro está voando em circulos, o céu está lindamente azul e ligeiramente acizentado em cima da cidade.
 Ninguém veio apagar o fogo da beira da estrada, ele já comeu o bastante, está cansando e diminuindo. Os pedreiros foram embora, os cavalos sumiram de vista, e o gado da fazendo está vindo pra ca, vou embora também, cansei de descansar.

domingo, 28 de abril de 2013

colheita


Imagine que no futuro os Chorões estarão imensos, velhos contadores de história, da nossa história. Contarão que são filhos dos velhos Chorões do lago e nos lembrarão daquele fim de tarde. Serão robustos, verdes, balançantes, preguiçosos e sentimentais que chorarão folhinhas verdes até que consigam se deitar no chão. Nós dois, do terraço veremos suas copas, e lá longe o vale.  Sentados no chão e encostados um no outro, cada um na sua função, um na piteira e o outro no tombo, conversaremos sobre os muitos anos que se passaram. Falaremos de como o quintal mudou, comentaremos os ipês do vizinho e as roseiras de sua mãe. Depois nos perderemos nas horas rindo de alguma bobagem, e em algum momento, o tempo vai parar e eu vou reparar no seu sorriso, nos dois traços que se formam em baixo dos seus olhos logo acima das bochechas, fitarei seus olhos serrados de felicidade, seus retos e longos cílios que tanto gosto, não me conterei e lhe roubarei um beijo.

                Ontem ,enquanto dormias, eu sentei aos pés da cama e escrevi, escrevi, escrevi, depois apaguei tudo e dormi. Apaguei por que eu queria ter escrito sobre mim, sobre você, sobre nós, e na realidade não estava escrevendo sobre ninguém.  Apenas jogava palavras no Word, palavras que contavam uma história qualquer e não a minha. No conforto e segurança daquele escuro eu queria ter escrito sobre o quanto eu amava estar ali, aos pés da cama e te vendo dormir. Queria escrever o quanto eu amava as dobras no cobertor azul e a luminosidade vinda da janela. O silêncio da casa, a sua respiração. Mas desisti, e não escrevi nada, deitei atrás de você, te abracei, te beijei a nuca, rocei no seu cabelo, encostei a testa na sua cabeça na esperança de ouvir seu sonho. O desejo foi forte, e no silêncio da minha mente eu pude ouvir a sua. Fechei os olhos, vi onde estavas, fui pra junto, dormi.

                Eu queria entender a paz que sinto quando sento aqui nesse banquinho do seu quintal. Só aqui relaxo o suficiente pra deixar meu corpo sentado e minha alma voar. Voar que nem borboleta depois da chuva, feito doida entre as gotas d’agua nas plantas. Minha alma voa de lembrança em lembrança, de sonho em sonho, bebendo os sorrisos no imaginário. Aqui, no quintal, todo fim de tarde é memorável, no horizonte as nuvens se desfazem se transformando em fiapos de algodão pelo céu, que logo mais será o quadro do infinito. E nós teremos passado mais uma tarde aqui, entre as plantinhas que contam a história da sua vida, e agora da minha.

                Os Chorões do futuro serão plantados hoje, as roseiras já estão floridas, as bromélias estão dando brotos, os bonsais estão pedindo cuidados, os mamões em breve serão colhidos e as pitaias também, as primeiras acerolas apareceram... Hoje, eu quis escrever, sobre o amor que sinto por plantarmos juntos. Plantamos de um tudo, plantamos desde sementes a histórias, e de terra entendemos, de sonhos também, por isso confio que todo dia será dia de colheita.

 Hoje, quando formos dormir, te darei outro abraço, outro beijo, pra que amanha, eu colha uma nova história e tenha sempre o que escrever. Amo você.

Selmy Menezes

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Um pai e um filho, e eu.


“Ele é meu filho.” Ele disse.  E levantou-se da grama pra chegar mais perto da jabuticabeira. Olhando pra cima e notando um Sangrim , assobiou o canto certo e o passarinho que dormia tranquilo acordou desconfiado. Olhando de lado, o passarinho ficou a pensar se daria atenção pra um humano que tentava falar com ele, aparentemente seu raciocínio duraria a eternidade, seu pai então desistiu de se comunicar, “afinal- disse ele- tem o pedaço do canto que eu não consigo imitar”. Durante um tempo o passarinho ficou a fitar seu pai à espera de uma nova tentativa, mas sem mais assobios, o passarinho voltou a dormir em paz, protegido, quase escondido, em cima do galho recém podado.
                O passarinho despertou lembranças. Uma bela, longa e apaixonada fala sobre pássaros. Não pássaros de qualquer lugar, de qualquer árvore, falou bonito sobre os pássaros que num passado visitavam com frequência seu quintal. E não o visitavam à negócios, iam por prazer, pelo prazer de cantar. Seu pai os atraia com assobios... Mas claro que nunca seu pai esqueceu e nem se esquecerá de nos trazer os petiscos, e por força do habito oferecia quirelas de milho num coxinho dentro de uma gaiola aberta, por um passadiço os pássaros entravam e saiam da gaiola, felizes e cantantes, satisfeitos e acima de tudo livres.
Nunca seus discursos terminam vazios, por fim, ele disse:
- Por isso tudo, eu queria ele aqui.
Tranquilo e paciente calmamente sentou-se novamente junto a mim na grama. “Eu quero que no futuro ele me escolha”, seus olhos carregados de saudade compartilharam comigo o amor que sente por você. Não pude deixar de abrigar em mim também esse tão sincero amor. E ele continuou, “ quero contar-lhe uma história, e depois outra e outra, e por fim contar tantas e tantas histórias de saudade que assim ele entenderá o quanto senti sua falta, entenderá o quanto tenho pra contar, pra ensinar, pra mostrar, entenderá o valor de ser um filho, não um filho qualquer, um filho meu.”
Eu, que entro na história não sei se como narradora, se como personagem, se como mãe, não sei, entro como alguém que precisa escrever para que num futuro leias o amor de seu pai, que é imenso, único, e exclusivamente seu.
Nesse quintal que lhe anseia, eu e seu pai compartilhamos a vida, e ao falarmos de mim, dele, de nós, você surge, e é importante.
Um abraço meu, que nunca te vi.

Selmy Menezes.
24/04/2013. 20:31h.

domingo, 17 de março de 2013

Nos brotos.

 Há muito que venho no vale pra pensar. Eu paro e olho lá longe. Os caminhões bem pequenininhos passando na estrada, as nuvens como que lençóis sobre a cidade, as pontas dos prédios por detras do morro ensolarado, as copas frias e escuras das árvores no fundo do vale. Daqui, o mundo parece maior.

 Sento no tronco principal de uma árvore tombada, apodreceu as raízes e caiu de lado. O capim cresceu à sua volta, até no pouco de terra que levantou do chão junto com a pobre raiz, faz anos desde à queda da árvore. É um belo e dramático quandro que há tempos é contemplado pelos poucos e fiéis que frequentam o espaço.

 Gosto de vir aqui pra assentar a poeira da cabeça, ouvir a vida através do silêncio da calma. Venho ouvir  o vento, as vacas pastando, o sol subindo e o capim esquentando. As vezes eu imagino, como num filme de cenas aceleradas, o sol nascendo e se pondo, nascendo e se pondo desde sempre, desde que o mundo é mundo. Imagino o chão se mexendo e os primeiros brotos saindo da terra, vejo a vida se formando em segundos, como se não tivesse tudo acontecido ao longo de bilhões e bilhões de anos e sim num fechar e abrir de pálpebras. Tudo bem rápido e derrepentemente estou aqui, pensando nisso sentada no vale. Como se no "aqui e agora" de tudo que existe, estivesse eu, sentada na árvore deitada no vale.

 Deitada sim, a árvore está a descansar, a tomar folego depois do baque e a se recuperar. Quando o vento passa apressado, podemos ver os brotos brincando por cima dos galhos quase secos, todos sorrindo em verde claro. Depois de caída a pobre árvore não viu outra escolha a não ser secar-se quase que por inteira e concentrar-se na fina e marginal raiz que lhe sobrou fincada na terra. Confiante e paciente passou anos a engrossar sua raiz afim de que essa pudesse se tornar a raiz principal e não mais um galho qualquer. A fraca raiz pôs-se a crescer, a criar forças pra sustentar a nova folhagem que se formaria, forças pra mandar a seiva pra cima e permitir que árvore grite novamente "vida!".

 A paisagem que outrora era morta, não o era de verdade, era engano nosso, falta de sensibilidade. Na realidade não era morte e sim um quadro de humildade e perseverança. Pura sabedoria.
 Deitada sobre o chão, despreocupada, livre, renasce. Renasce a árvore, as raízes, as folhas, a vida, e eu que assisto.

 "Andei pra chegar tão longe e daqui de longe eu olhei pra trás.
  E foi como ver distante eu atravessando os meus temporais.
  Ouvi Ana me chamando, disse "se eu não fosse eu não ia mais"
  e eu vi o que a gente fez, pra chegar aqui no que agente faz..."
                                                                Lenine


Selmy Menezes

quinta-feira, 14 de março de 2013

Parte III - No colo...

 "Meu bem, não chore...". E eu choro e ele chora, e a gente chora sem saber muito se é de tristeza ou felicidade, se de medo ou de amor. Tudo se mistura, se confunde e se derrete escoando pelos olhos em salgadas gotas de dúvidas e certezas.
 Beija minha boca e abraça minha alma, minha alma de menina, que mora bem no fundo de mim, bem dentro do corpo, na essência, no quente e úmido colo que compartilho com você. Colo que embala minha feminilidade ainda cheia de contornos infantis. Abraça minha menina, me consola, me alimenta, encoraja...cuida.
 Na sinceridade dos seus molhados cílios eu guardo meu respeito, cultivo em suas lágrimas o desejo de seu sorriso...Meu bem, acomode-se,fique. Se eu chorar, é de amor.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Parte II- Nos sonhos.

Ontem eu me flagrei contando segredos. Contei o que faço quando você dorme.
Eu vejo beleza na cena. Sem roupa, dormindo, as pernas e braços abertos, o peito pra cima, respirando fundo, vulnerável, tranquilo. Eu fico olhando a sua cara e você não se meche. No seu pescoço eu vejo sua pulsação e eu lembro que gosto do seu cheiro. Junto com a vibração de suas veias percebo seu tórax subindo e descendo, seus pelos. Gosto.
 Existe uma certa delicadeza. E no fundo é o que mais gosto, a Delicadeza. Quando dormes, sua delicadeza ganha espaço, mais corpo, mais cheiro. Eu sinto seus cheiros como se brilhassem no escuro, e eu os sigo com a ponta do nariz. Todos são limpos, cheiros que me trazem boas recordações. Um cheiro que me lembra a tranquilidade de estar segura, à salvo, protegida. Um cheiro de jardim, de roupa limpa, de ar fresco, café, cigarros...
 É tão diferente dormindo. A sensação é que és absolutamente meu, contanto que não lhe acorde. Seus músculos. Sinto vontade de te tocar com o maior cuidado do mundo, deslizo meus dedos por entre seus contornos. Me levanto, arrumo a janela pra direcionar o facho de luz. Respiro devagar, observo, me perco...me encontro, e durmo.

 Acordado, sua delicadeza dorme, suas sobrancelhas se franzem, sua boca se contrai, é todo força e determinação. Gosto também, tem seu charme. É preciso ser forte nesse mundo, eu sei, mas tenho um tanto de pena. Esse mundo é muito hostil...

 E nesse mar de pesares, encontro abrigo em seus olhos. Fortes e castanhos, leves e decididos. Quero que encontre abrigo em meus olhos também, e onde mais quiser em mim. Quero que sinta o que eu sinto, quero que sinta que nesse quarto não há frio que nos castigue. Você, tão quente, quente sim, e me relaxa as tensões sendo assim. Meus pés gelados precisavam dos seus. Eu precisava de tudo que me deu, de tudo que me dá.

 Foi tão triste ver o mundo se desencantar. Foi tão triste. Eu criara um tão belo personagem, tão belo e desagradavel quanto aquela flor no quintal que cheira a merda e atrai insetos. Nesse mundo, devido a tanta bosta, há uma infestação de insetos, que nojo. Se reúnem em volta do lixo e festejam, e eu tava lá, brincando de ser cega, que humor negro. Você me pôs na moto e me levou embora.

 Hoje, vendo a lua cheia por detrás da copa da jaboticabeira, penso que gosto dos seus dedos dos pés e dos seus olhos calmos, de suas costas e de suas orelhas, Gosto de sua sensibilidade. Gosto do leite quente antes de dormir e dos cereais às manhãs, amo os gostos do seu cuidado por mim. Seu amor tem gosto de fruta, de vinho, de pãozinho saído do forno, de comida boa...tem cheiro de erva doce, de arnica e maconha, tem calor de fogueira, tem conforto de casa.

 E eu penso, amo e sofro tudo isso no silêncio da madrugada, no escuro do quarto, no conforto da cama, enquanto dorme.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Parte I- O quintal

 É uma casinha de madeira com roseiras no canteiro da frente, e um Ipê na calçada. Dezenas de Suculentas te cumprimentam na pequena varanda e Samambaias pelas paredes até à porta de madeira. Muito vivas, verdes e felizes, mil florzinhas e bonsais, um bonsai em especial de uma Flamboaiã, todas pulverizam no ar uma atmosfera de tranquilidade.

No quintal nos fundos da casa, a sensação é de estar bem longe daqui, daqui de Marília, da faculdade, dos 20 anos. Sinto-me perto de casa, da minha. E quem me conhece sabe, eu não tenho casa. Então quando escrevo "minha casa", me refiro à imaginaria, àquela onde mora meu futuro, sabe?  É onde moram meus planos, onde minhas esperanças se alimentam, onde minhas aflições finalmente encontram paz e dormem.

Sentada entre o canteiro de morango e as bromélias, entre as flores de maio e de outubro, sobre a sombra falhada da jabuticabeira, eu fico a pensar. Penso nele, penso na vida. Ele não sabe o quanto eu penso, o quanto eu reparo, o quanto eu gosto, busca nos meus olhos uma resposta, e é tão esperto que encontra. Encontra nos meus olhares e nas entrelinhas do que eu digo a intensidade do que sinto, confirma na pele a sensação, deixa de ser só impressão, fica sabendo, vai conhecendo, me descobrindo, tirando as cobertas, me vendo. Eu o olho enquanto poda o limoeiro, eu gosto, e ele sabe.

 Observo as flores do pé de Maria, seus brilhantes e suas tão famosas folhas, tão cheirosa no cantinho do terreno, plantada é sempre melhor. Entre um trago e outro minha vida mudou muito; minha piteira evoluiu, a pilha de roupas sujas foi lavada, eu experimentei peixe crú e passei a comer rúcula sem dificuldade,voltei a comer de manhã, voltei a me alimentar na realidade. Há muito estava me alimentando de frustração ao molho de qualquer coisa, e pra quem não sabe, não há prato mais indigesto. Ele não faz ideia de quanto eu gosto de suas comidas, sabe não...rs, alimentou minhas forças.

 O limoeiro é velho, a goiabeira também, todas as árvores estão carregadas de história, as marcas das podas desvendam as perdas ao longo de suas vidas. E mesmo com cicatrizes, cresceram lindamente de acordo com a vontade de quem as podou, o limoeiro tem sua copa bem baixinha e inclinada pra direita, caindo na direção do muro, é uma pequena cabana.

 Cuidadoso, paciente e detalhista ele dá forma ao quintal. Existe o canto das orquídeas aos pés da jabuticabeira. Logo atras, o canto das bromélias, que é por sinal um cantinho especial, é onde fica o banquinho, todos deixam aqui quando sentam um pouquinh de si mesmo. Eu quando sento ali compartilho com as plantas umas muitas lembranças, eu piso na terra, cheiro o ar. Gosto dele, gosto mesmo, dele que escolheu os vasos, que montou o banquinho, que cuidou das plantas, que plantou os morangos. Eu plantaria morangos, penso que o cara é esperto, sensível também.

 É um aconchegante quintal, o é porque me lembra meus pais, minha infância, meus livros...Ultimamente ao acordarmos, cedo sempre, sentamos no banquinho e fumamos um olhando o vale lá no horizonte, e ele fala de especiarias, pratos raros e curiosidades da gastronomia, enquanto eu olho carros descerem e subirem nas duas ruas que podemos enxergar, bem longe, os carros parecem de brinquedo, pequenos, sem barulho, inofensivos, aqui a sensação que tenho é que tudo no mundo me é inofensivo.

 Ele não sabe o quanto eu amo esse quintal...

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Passou...

 Até quando procurarei em outras curvas suas medidas, em outros cheiros sua essência  em outras bocas seus trejeitos, ate quando vou pensar que ainda dói? Eu to cansada...

 Dei corda no maldito relógio de ferro. O olho atônita como se fosse mesmo um portal, adentro seus ponteiros e vejo muito mais que as horas, vejo um tempo que se foi. Não um tempo qualquer, um específico, aquelas madrugas infernalmente quentes de setembro. Tempos nos quais este relógio fazia peso em outro criado mudo, num quarto menor e mais aconchegante que este que hoje em dia durmo. Tristemente, se por acaso neste relógio ainda houvesse vestígios do perfume daquele quarto, sem rodeios eu o cheiraria como quem há muito tempo não respira. Mas não. Tem cheiro de ferro mesmo, de morto, de frio, de relógio qualquer. E seu barulho é tão irritante! Que aflição, esse desesperado relógio só sabe esmo marcar as horas, num infeliz tic-tac que não é capaz de me levar pra outros tempos. Inútil relógio, maldito juiz do atraso, só me serve mesmo pra lembrar do que quero esquecer.
 Eu cansei de ir contra o sentido horário, e me pus no tempo de agora, e agora já faz tanto tempo, eu nem lembro mais. Comecei a esquecer coisas, detalhes. Os detalhes que registravam nossa intimidade. Eu tento não esquecer o cheiro de suas dobras e juntas, mas ele já se esvai. Eu tento não esquecer sua cara em certos momentos. Eu mordendo seus pés, eu lhe mordia todo procurando a macies que sua pele propunha, e eu a encontrava ao final de suas costas num cantinho do quadril. Entre os dentes eu lhe sentia até o gosto das pintas! A textura dos seus poros, eu lhe amava com a língua, de olhos fechados, coração aberto, mente vazia.

E eu vou sim apontar o corpo como centro de toda saudade. Afinal é no meu corpo que a saudade do seu corpo derrama toda sua acidez, aparentemente derrama tudo em meu estômago. Mas é "só saudade" dizem. Pra mim parece mais, saudade é pouca coisa, não causaria tanta dor. Sentir saudade é bom, se fizer chorar será por pouco tempo, saudade é lembrar de coisas boas que se foram, tem seu "quê" de felicidade. Se acaso minha dor fosse só saudade já teria passado, teria se diluído nos rios de choro que derramei, teria se afogado em meio ao mar de novidades em que hoje me banho. Hoje, tendo de me reinventar, me vejo sem material pra tal feito, sinto que perdi pedaços. Esqueci em algum lugar daquela casa um pedaço de mim. Talvez no box do banheiro, ou na bagunça do quarto à esquerda, mas penso mesmo que perdi alguns pedaços de mim foi ali naquela cama. No colchão que saía do lugar, na detestável coberta vermelha de corações vazados, naquele travesseirinho. Está por ali o pedaço que perdi e que tanto me faz falta, tanto.

 Mas vou ficar inteira, está decidido já, finalmente ou tardiamente, sabe-se lá, mas meu Deus! Como doeu..Sei que não foi injusto, nessa história não houve vilão nem vítima e sim um menino e uma menina, brincando, só.

 O tempo anda cicatrizando minhas perdas.Vou me reconstruir, eu sei. Mas como um aleijado que sente o coçar o membro que perdeu, eu sinto latejar a dor de uma ferida que nem existe mais. Lateja em minha memória a profundidade do corte. Você nem sabe. Nem estava em casa quando me cortei, você estava longe quando assimilei a despedida, que há mto se desenrolava na frieza de seus beijos e na frouxidão de seus abraços.

 Pois o que eu quero é trancafiar essa minha tristeza, que grite sozinha! Que esperneie! Que chore, que sofra, que morra! Que morra de fome, que não tenha lembranças, que seque, que perdoe e se vá. Eu vou construir um baú de coragem, guardado por um cadeado de sensatez, e lá guardarei pra sempre o amor que quis lhe dar. Dar mesmo, de mão beijada, todo amor do mundo. Vou trancar nesse baú o contorno de suas orelhas, o lado direito de sua bunda, seus dedos redondos dos pés, suas sardas, seus dentes e sua falta de cabelo. Guardarei seus olhos e seus braços, sua voz e sua nuca, seu gosto. E mais importante de tudo, nesse baú encerrarei seu cheiro. Aquele cheiro doce e amadeirado, calmo e simpático que eu tanto amava, eu amava que se impregnasse em mim e nas minhas coisas, sentir aquele cheiro era como expirar em alívio.

 E este baú nunca será visitado, será depositado no esquecimento, nos passados distantes. Objetos e lembranças empoeiradas por conta do tempo. Tudo caído num ligeiro esquecimento, nenhuma cor é mto viva, nenhum som é mto claro, e também nenhuma dor é mto triste.

 A dor que sinto se embaça a cada dia, e eu sou forçada a lhe dizer adeus. Num triste aceno que me despede de uma longa e apaixonante viagem. Viagem que teve inicio quando fitei seus olhos, e só chegou ao fim por eu mesma ter os perdido de vista.

 Escrevendo tais palavras no papel saem elas de minha cabeça, ainda bem pois já pesavam muito, saem e se despedem com um olhar de "nunca mais". Me alivio, durmo, me tranquilizo, me alegro, me perdoo e lhe deixo.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Um planeta.

 Marília me reservou um lugar, para que aqui eu passasse por certos aprendizados da vida. Que fim de ano mais triste. As festas e a cidade tão coloridas, porém aos meus olhos tudo se dividia em tons de cinza. Aprender a perder, a ganhar, a tentar...não desistir...
 O tempo vai passando, a vida se desenrolando e se transformando em História...O universo em constante trabalho de parto, na latejante dor que antecede o que chamamos de Vida, fruto da união entre o Tempo e o Movimento. Impulso de si para si, num espiral que aspira o infinito e nunca perde de vista seu ponto de inicio, impulso que não se perde, não se zanga, apenas segue rumo à expansão, submisso ao espaço que lhe cabe nisso que chamamos de Universo. Que inveja das plantas, tão calmas em meio a tanta balbúrdia, e eu aqui, corroendo meu estômago e unhas numa ansiedade sem fundamento, rs..que tolice.

 Mas a Natureza, fruto da Vida, vem acolher seus filhos em meio suas dores, vem sarar seus corpos, tranquilizar suas mentes, curar suas almas. Vem ensinar  a continuidade, como toda boa mãe. As mães, permitem que se cumpra as vontades do filho mesmo sabendo dos possíveis machucados, pensando nisso ficam por perto, zelando por seu filho para lhe ser útil caso ele precise...Quando algo da errado lá vem as mães com seus fartos e quentes seios, nos abraçam forte e choram conosco, choram a tristeza de um sonho que se desfez, e entre os soluços dos filhos, entre as lagrimas de sua própria cria as mães ascendem à Sabedoria e dizem tranquilas "vai passar..." e vai mesmo, as mães estão sempre certas...rs

 Minha mãe está longe, por torpedos de celular ela tenta ao máximo se fazer presente, e se faz. Nas palavras que me manda materializa seu abraço que tanto quer me dar. Hoje eu aceito humilde, honrada, feliz, que saudade. Mas mesmo hj estanto ela longe, o trabalho de minha mãe foi tão bom que quando choro sozinha, sua voz ecoa dentro de mim dizendo "vai passar...". Acordar, faz parte dos sonhos...

O tempo, que em nada se importa com nossos relógios e nossos calendários, só preocupa-se mesmo em nunca parar, sustentando tudo que é vivo...sabe-se lá pra quê. Da vida eu só sei que ela não quer morrer...

"Nunca se é Homem enquanto se não encontra alguma coisa pela qual se estaria disposto a morrer"
                                                                                                                          Jean. P. Sartre



Selmy M.