quarta-feira, 21 de junho de 2017

Sobre os dias

Me senti velha pela primeira vez, senti falta do corpo e do espírito que já tive um dia. Não reconheço a moça no espelho, é outra pessoa, mais chata e acabada que eu. Com o tempo, os olhos de peixe morto estão se acentuando, os dentes estão ficando acinzentados e a boca, antes reta, está se curvando num tom de rabugem.
Minha pálpebra direita está mais flácida que a esquerda, que aconteceu? Onde estão meus olhos? A assimetria se intensifica a cada dia e antes fosse só por fora! Por dentro, apenas conflitos, entendimento e sensibilidade se digladiam sem hiatos. Há uma esperança ainda, amputada, que sem pernas se arrasta pelo caminho enquanto esfola os braços, mas está lá, viva... tão linda a esperança, mesmo assim, meio morta, há um quê de coragem em seu arrastar.
A Ada está ficando velha também, resmungona, e está, assim como eu, ranzinza e doente, cansada e impaciente. O gato está perfeito.

São gotas de lucidez, o gosto é horrível.

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