quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Ipê

 Voltando do trabalho domingo de manhazinha, numa esquina próxima à minha casa, dois ipês lindamente floridos encenavam uma espécie de "garôa de flores", não pode se chamar de "chuva", pois as flores caiam lentamente, garôa é nome bom.
  Maritacas, abelhas e beija-flores estavam nas copas se alimentando e "barulhando". As maritacas, nos intervalos de suas gritarias, bebiam o mel das flores, fazendo assim com que se desprendessem e caissem lá de cima, num balé até o chão.
 Passei um tempo ali, olhando encantada as maritacas verdes derrubando dezenas e dezenas de flôres amarelas, que se acumulavam na calçada, na rua e em cima de um carro preto estacionado.
 As flôres eram muitas, estavam em cima, em baixo, e chovia, chovia flores, caiam de cinco em cinco.
 Quis levar flores pra casa, e decidi levar apenas uma só. Ao olhar pro chão na tentativa de encontrar a flor certa, aquela que ao me encontrar me dissesse "oi" de uma forma mais intrigante, mais peculiar, mais atraente, aquela que poderia representar a beleza da cena. Haviam botôens caidos; flores já entreabertas; flores jovens em toda sua sensualidade; e flores já velhas e que contavam histórias, como a de um inseto que morou alí uns dias, um galho ou folha que esbarrou certo dia, e até mesmo falam do tempo, do tempo que passou,elas sabem que um dia foram botõens, sabiam que prcisavam dar mel e souberam que no encontro fatal com a maritaca o próximo passo seria desconhecido por via de regra, afinal não estava nos planos daquelas flores acabarem daquele jeito.
 Uma flor em especial, me disse que planejara ela ir embora dalí numa brisa, num futuro qualquer onde já estivesse muito, muito fraquinha, cansada até, com rugas, uma certa flacidez. Sairía dançando do seu galho, bem de leve, e seria um vôo e não uma queda. E enfim cairía mais pra lá ou mais pra cá de onde nasceu, mas não, caíra em linha reta, direto pro chão.
 Decidi então poupar a queda de uma flor, a qual levaria apenas um susto e não um fim. Ela permaneceria sua vida, só que de outra forma, ainda contaria histórias, histórias de como foi ela, uma flor, coisa de árvore, parar dentro de um livro, depois de sido quase morta por uma maritaca faminta que a atacou em sua junventude, quando ainda tinha humidade e planos.
 Com as palmas das mãos abertas, fiquei ali a tentar pegar discretamente uma flor ainda em sua queda, mas não dá, não dá pra ser discreto. Era difícil, muitas caiam. Tentar encontrar uma flôr em queda e pegá-la, discretamente não dá. Num plano lógico, segui com os olhos uma maritaca em sua procura por mel, pousou ao lado de uma flor, olhou, olhou, bicou o caule bem juntinho ao galho, girou no bico a flor com extrema destreza e ficou com o bico enfiado na flor, bebeu, bebeu e vôou, e nissou a flor caiu e foi como se eu soubesse exatamente onde cairia, estendi a mão esquerda enquanto olhava pra ela cair, e caiu como cego em tiroteio em minha mão. Me contou que se chamava Flôr Amarela de Ipê, disse também que sentia uma pequenina inveja de sua amiga Rosa pela simplicidade do nome, detestava tantos sobrenomes.
 Chegando em casa, escolhi Maria Moura pra cuidar de minha flôr, justamente numa página, onde Rachel de Queiroz escreve "...quando um perguintou ao outro onde é que ele morava, o cabra soltou a voz e respondeu: "Em cima das minhas apragatas, e em baixo do meu chapéu..."


Beijos.

2 comentários:

  1. Tão bom ler vc,já tava com saudades. qdo.salvar mais uma flor guarda dentro da sua bíblia em João 17.3. Bjos cheio de amor!!

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  2. O interessante, é que a flor não disse sobre a sua própria sensibilidade de flor, mas mostrou pra vc o quão sensível vc é. foi um encontro de almas, dali brotou o amor.
    vc está linda, linda. bjos

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