sábado, 14 de agosto de 2021

Sobre o sonho dos maus

 - Não estou conseguindo dormir… tenho dormido muito mal nos últimos dias.

- Por quê?

- Não sei…

- Talvez seja porque você não quer dormir aqui.

- Claro que não, meu bem.

De bruços, apontando para o inferno meus afetos, dormi mal - mais uma vez. O tempo passa levando consigo meus abrigos, minha paz, meus valores… Estou insegura, nervosa e vazia. Julgam-me louca e talvez tenham razão.

- Dedé? Vou te amar para sempre, porque já te amo direito. Meu ciúme não é maior que meu amor. Dedé?

Silêncio...

Fui dormir o sonho dos maus, enquanto Dedé (como sempre) o sono dos justos.


quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Sobre a condição do desejo

Nada é o fim do mundo e tudo o fim da vida. Há dias essa frase dança na minha cabeça ora oca, ora atulhada - salão estranho que, como já escrevi certa vez, não há onde se sentar. Não durmo, não como, não quero nada, nada além daquela cama, daquele quarto. Pedro acha pouco, não lhe basta que eu lhe queira, Pedro quer que todos saibam. Eu quero! Saibam todos! Vontade tenho de sobra… sou toda vontade, inteira falta - já escrevi isso também. Ando me repetindo demais, o tempo todo escrevo: te amo, te amo, amo…

Quero porque não tenho, é a lei do desejo - lei! E sei, então, que a liberdade do meu objeto de desejo é condição necessária para que eu o queira eternamente. 

Colha as rosas, meu amor, e irão murchar


quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Sobre o pavão

 - Natalia, dois anos no Canadá, francês, francês…

- Beto, você está bem?

- Eu não consigo me concentrar…

- Percebi mesmo sua cara ao longo do dia, viu passarinho verde, foi?

- Você não sabe de nada! Eu vi um passarinho encantado! Um pavão brilhante está na minha casa agora mesmo.

- Você veio trabalhar chapado de novo?

- Sim. Mas a coisa do pavão é verdade. Do bar fomos para o quarto, havia um pavão, acordei três dias depois e o pavão estava em casa.

- Que segunda!

- Pois…

Silêncio…

- É sério essa coisa do pavão?

- É.

- Não é ilegal?

- Provavelmente.

- Você não fez direito?

- Não. Fiz filosofia, errado mesmo.


Sobre rosas e macacos

Paixões são como rosas, desfazem-se se não as colhermos pelo caule. É preciso muita concentração para não nos tornarmos macacos excitados que, sem delicadeza alguma, enfiam na boca a roseira inteira.


quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Sobre o tempo e o espaço

Há três dias penso mais em Pedro do que em qualquer outra coisa. Mas a vida é vasta e há muito já o que resolver. O tempo e o espaço que tenho para lhe dar são os que existem dentro de mim. Pode parecer apenas uma cantada estranha de inclinação kantiana, mas é o que tenho mesmo a oferecer - as estruturas básicas da minha sensibilidade.

Pedro tem raízes no peito e nos olhos - quero cultivá-lo.

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Sobre verdades imorais

Como já disse noutros contextos, a filosofia me tirou quase tudo (foi um casamento infeliz). Uma das coisas que ela levou foi o meu amor romântico e monogâmico. A filosofia é uma demônia, mas uma demônia justa que te leva coisas e deixa outras no lugar, coisas que ela julga melhores do que aquelas que afana - é uma intrometida imoral, ladra de razões, de certezas… No lugar do amor romântico e monogâmico, que eu expunha na sala, ela me deixou o amor livre - que escondo no quarto.

No quarto de Pedro, na música que fizemos, na fotografia, quem quiser ver que veja. Está na minha cara. Ao chegar em casa olho no espelho os pontos vermelhos nas pontas do meu nariz e queixo - o rubor próprio do dionisíaco! É tudo pela arte, pela vida, pelo amor.

É o que Pedro e Dedé precisam entender. Dedé cuida de mim, Pedro canta para me tocar e toca para me cantar…Dedé é minha pessoa (mesmo que não aceite), e Pedro poderia ser também (se aceitasse). Como sempre, estou cheia de amores e sozinha. Estamos todos… cheios de amor e sozinhos, somos muito humanos, somos artistas.

Sussurrando sensualmente, ao pé do ouvido da humanidade, verdades imorais - a arte, a vida e o amor.


Sobre a esposa e o bebê que não tenho

Tenho dó de Dédé, hoje mesmo ele disse “eu sou mesmo um coitado”, e é. Deve ser horrível essa sina de ser o amor da minha vida, o amor da vida de alguém como eu, o amor da vida de uma pessoa doida. Eu tenho medo de ter um filho, porque sinto que essa criança cresceria estúpida, torta e desgraçada, como eu. Hoje conversamos sobre isso e foi muito interessante. Dedé é a única pessoa mesmo que poderia supor minha resposta, eu perguntei:

- Sabe o que eu faria se engravidasse?

E ele na lata respondeu:

- Daria para o pai.

Dedé me conhece. Dedé é muito bom, muito melhor que eu. É minha esposa idolatrada, salve e salve! Mas Dedé é homem… Se fosse mulher Dedé seria ótima esposa, mas essa testosterona toda atrapalha demais. Nunca soube minhas taxas hormonais, mas sinto que tenho um vazio, uma coisa que falta, que se projeta na minha falta de fé e no meu temor à maternidade. Eu ficaria triste se engravidasse, profundamente triste. Eu choraria, eu me bateria, eu imploraria ao universo que matasse o meu bebê. Falei isso para Dedé hoje, e ele em sua infinita sabedoria sugeriu que eu registrasse essas reflexões, registrasse também a imoralidade dessas reflexões, para que eu deixasse em algum lugar (fora de mim) a vontade de matar o meu (imaginário) bebê.

Estranhamente este se tornou um texto para o bebê que eu nao tenho, primeiro texto, talvez único e último, para o bebê o que eu não tenho. Saiba, bebê. que eu te amaria. Não te quero, mas te amaria, como tudo que eu amo nessa vida. Eu seria sim uma boa mãe. Por isso mesmo não quero, dá muito trabalho ser uma boa mãe, uma boa pessoa. Não te quero por que você, que não existe, me daria muito trabalho. Mas não só, não te quero porque eu te amaria demais, e amar dá trabalho, e eu não gosto. E não só, não te quero porque você poderia ser igual a mim... parecido que fosse - seria triste.


quinta-feira, 22 de julho de 2021

Sobre ser só

O amor e o ódio que sinto se alimentam da mesma razão: ele não me quer. E dizem mesmo, sei lá quem disse, que o contrário do amor é a indiferença. Sei bem o que sinto, mesmo que sejam contraditórios os meus sentimentos, sei de todos eles. Agora, o que ele quer? Isso não sei e nunca soube. Quer que eu desapareça? Que eu me declare? Já desapareci, já me declarei, muitas vezes. Dedé me gosta, mas não me quer.

Sinto-me só no mundo que inventei, tenho muitos humanos e (não raro) nenhum. Mesmo com Dedé ao lado, não tenho ninguém, estou sozinha me afogando em saudade, tesão e esperanças infantis. Dedé é tão adulto, tão limpo, tão certo… e eu… eu sou como que desde os quinze uma adolescente suja e torta, mesmo que agora eu tenha trinta. Dedé vai me abandonar de vez um dia… e então serei verdadeiramente só, não só em teoria, mas na prática, não só no meu mundo, mas no de todos, só de tudo.


Por quanto tempo serei capaz de sustentar essa coisa de amar muitos de uma vez? não sei viver livremente, quanto mais amar. Sou toda grade, cadeia e cela, disfarçada de uma boa ideia.


terça-feira, 20 de julho de 2021

Sobre literatos

Quero um livro seu, um livro de contos e desenhos. Gostaria de lê-lo e vê-lo antes de dormir porque gosto daquela porra toda escorrendo entre as letras, da desordem figurada e literal, do seu pau. O que ele escreveria depois de ver com os próprios olhos a baba lenta e transparente que pode pingar de mim? Não é regra, mas pode acontecer. Ocorre quando estou apaixonada (o que é raríssimo) ou transo com literatos e pensadores (o que é recorrente). O que ele faria se, num momento trivial da vida (enquanto filosofa, por exemplo, com as tábuas do teto ou com os tacos do chão), descobrisse-se apaixonado? A arte faz as vezes do espelho que falta aos que racionalizam a sensibilidade e as vezes do encontro impossível dos que se amam a distância - que bom.

Quero um livro seu sobre mim, porque sou carente demais e não me enxergo. Quero uma xilogravura imensa, meus peitos no hall de entrada - para as visitas. Quero o artista sobre mim em texto e textura, prosa e peso.


quarta-feira, 14 de julho de 2021

O gosto da pobreza

Ainda hoje somos pobres querendo ser ricos, parece um carma [e ri]. Mas euzinha tenho os pés no chão. Não jogo nenhuma comida fora. Às vezes meu almoço é todo dos restos do dia anterior.

- Você o quê?

- Quero ser rica!

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