terça-feira, 2 de julho de 2013

Arte e o despertar filosofico



A principio eram apenas desenhos, depois de uns anos viraram Arte. Antes eram ideias, e tornaram-se Filosofia. Qual a diferença do coração de um poeta? Ou dos olhos de um pensador? Nasceram estes já com tais inclinações? Ou foram conduzidos às mesmas? O menino nasceu artista, ou aprendeu a ser? Quando um pensamento passa a ser Filosofia? O Homem, por ventura, aprende a ser um pensador? Se estes, artistas e filósofos, por Deus nascem com esses saberes, quem sou eu para questionar? Porém, se não for alguma divindade, quem os ensinou tais coisas? Nesses singulares processos de educação, é possível um educador? Algo ou alguém que conduza o aprendizado de tais grandezas?

Eu aprendi a gostar de músicas clássicas ao absorver o amor de meu pai por elas. Eu aprendi a gostar dos livros por achar bonita a cena de minha mãe lendo deitada na rede. Meu pai tinha um amigo pintor, e eles conversavam sobre quadros e sobre o passado. Paulo, o amigo, contava de quando era pequeno e morava no Sul, contava do trilho de trem que passava pertinho da casa, quando o trem passava sempre apressado, a casa tremia. Eu imaginava a casinha tremendo e Paulo ainda menino. Paulo era velho, brilhante e egocêntrico (como todo bom artista! Dizia meu pai). Os melhores quadros de Paulo de Andrade são os dos trens, maravilhosas imagens a tinta a óleo, vagões, estações, passageiros, trilhos... Eu me sentava à mesa junto às conversas dos dois, e mesmo sem nada entender das conversas em si eu gostava de ficar ali, gostava dos tons das vozes, das palavras bonitas, dos olhares de seriedade e do cheiro de café. Certa vez, ao mesmo tempo em que conversava com meu pai, Paulo, num guardanapo me ensinou a desenhar um gato. Poucas e precisas linhas e surgiu um gato, eu fiquei encantada. E o amigo do meu pai virou amigo meu também.

Em cada visita, uma aula e um presente. Paulo me apresentou as tintas, os pinceis, os desenhos à carvão, argilas e telas... E me tornou uma amiga do que ele chamava de “Arte”.

Meu pai, Jether, ao notar meu interesse, passou a me presentear com massinhas de modelar, pincéis, guaches e telas. Sentava-se comigo no chão para desenhar com o giz de cera, me ensinava a misturar as cores e a ser suave com o pincel e o lápis. Quando eu terminava um desenho, a opinião de mais valia era a dele. Ele não era como as outras pessoas, que ao olharem meus desenhos de criança diziam “Que bonitinho! Muito bem!” não. Jether pegava no papel, olhava de perto, de longe, encarava o desenho com as sobrancelhas franzidas e depois conversava comigo criticando meu desenho, ora positiva, ora negativamente. Jether contava da existência de outros artistas, falava bem de Monet e mal de Picasso, e mostrava quadros dos dois e expunha suas razões. Raramente citava Van Gogh e o que mais ele dizia era “todos tem um mestre, escolha o seu”.

Paulo gostaria de me ver formada em Artes plásticas, mas morreu antes mesmo de me ver concluir o ensino médio. Eu decidi não ir ao velório, não queria algo ruim pra lembrar, e eu também não acreditava que aquilo seria de fato uma despedida. Guardei a lembrança da ultima vez que o vi, o velhinho rosado pelo frio a falar de esculturas enquanto tomava chá. E que na mesma noite, vivo, despediu-se de mim.

E a ausência de meu amigo me deu saudade foi da Arte. E a Arte se tornou pra mim uma saudade constante de tudo que é bonito. Como se a beleza fosse algo fugaz, e a arte algo que prolonga a vida do que é belo. Como o quadro de Monet, que deu mais centenas de anos para aquele pôr do sol, que no mundo durou apenas alguns minutos (Álamos, 1891).

E tentando entender a Arte eu descobri a Filosofia. Digo que a Arte me levou à Filosofia por que ambas são a tentativa de dar voz ao que aparentemente não é nada, as emoções e os pensamentos.

A dificuldade de pensar sobre algo que não existe foi para mim mais do que uma aparente loucura, foi uma paixão; aquele misto de amor e ódio pela mesma coisa. E este algo está sempre a alguns passos de ser

alcançado, distante o suficiente para que eu não seja capaz de concluir se é bonito ou feio, feliz ou triste, se é meu ou se é de todo mundo, se é Filosofia ou se é Arte.

O casamento aconteceu, um triângulo não muito amoroso entre eu, a Arte e a Filosofia, brigamos e nos amamos como toda boa família e raramente entramos num acordo sobre o que nos liga nesse misterioso universo. Mas vivemos juntas e numa relativa paz.

Decidi estudar Filosofia para melhorar meu vinculo com a Arte, pois acreditava que a Filosofia era um tipo de arte, como uma arte de pensar. Em vez de cores, palavras, em vez de quadros, ideias.

Por razões cósmicas ou meramente sociais me concederam o cargo de Professora de Filosofia, mesmo estando eu no segundo ano de faculdade. Hoje em dia dou aulas para o ensino médio, meus alunos estão numa faixa etária de quinze a dezoito anos, e oitenta por cento mal sabe ler. Vi-me na maior de dificuldade que já tive, ensinar o que não existe e ainda por cima dar notas baixas para quem não entendeu, como se tivessem culpa. E a maior questão que já sofri se formou negra como uma nuvem em cima de mim: Como é possível ensinar a Filosofia? Não é por não saberem ler que não podem apreender a Filosofia, Filosofia é sabedoria e não ciência. Já conheci velhinhos sábios e analfabetos ao mesmo tempo.



E dessa forma, mais do que o tema de uma possível pesquisa na graduação, é atualmente um problema pessoal: Como é possível despertar a Filosofia na mente de alguém? Como suscitar amor e ódio pelo desconhecido, ao ponto de entenderem o que é amar a sabedoria?