terça-feira, 30 de abril de 2013

No vale.

Novamente sentada no vale embaixo de uma árvore, observo longe, lá na estrada, uma queimada. Ouço daqui o mato estalando, o fogo crepitando, e eu penso "quem chamará o bombeiro?" poderia ser eu mesma. Mas continuarei aqui sentada, só olhando, e em algum momento o fogo vai cansar.
 O sol passa por entre as folhas e lambe a minha cara, o vento dança e faz um carinho no meu cabelo, e eu abraço minhas pernas, felho os olhos, e escuto tudo.
 A fumaça como uma nuvem já cobriu a estrada, os carros surgem, desaparecem e reaparecem mais a frente. A nuvem devagarinho está a engolir um pedaço do vale. Os cavalos saíram da reta, foram pastar noutro canto.
 Noutro lado do vale, absolutamente protegidos da queimada, dois pedreiros constroem uma casa, e no exato instante estão a cavar.
 Quem será que iniciou a queimada? Ou não foi ninguem? Quem será que vai morar naquela casa? E o nome dos pedreiros? E no fundo, o que me importa? Qual será a razão de eu me sentir tão bem olhando tudo de longe? Aqui, sentada no alto do vale, olhando a cidade distante, o topo nos prédios e as antenas, e lá embaixo do vale, como que noutra realidade, uma fazenda. Quem será que mora lá?
 Daqui o mundo parece ser tão inofencivo, a goiabeira me dá sombra, o vento balança as quiçaças, e elas balançam bem calmas como se não ligassem pra nada, mal sabem que um dia alguem bem idiota pode vir aqui com um isqueiro e acabar com tudo. Um pezinho de alecrim do campo parece mais feliz que o resto do pasto, ele treme todo agoniadinho como se estivesse rindo.
 Eu não consigo ficar longe dessa paz, aqui eu não me incomodo com a existencia das coisas, somente assisto.
 Aqui eu não me sinto nem culpada pelo que acontece lá longe, muito menos a pessoa que vai salvar tudo aquilo, aqui eu sou só uma menina sentada a sombra de uma goiabeira, sou só uma coisa que parou pra descansar.
 No cé, um enorme pássaro está voando em circulos, o céu está lindamente azul e ligeiramente acizentado em cima da cidade.
 Ninguém veio apagar o fogo da beira da estrada, ele já comeu o bastante, está cansando e diminuindo. Os pedreiros foram embora, os cavalos sumiram de vista, e o gado da fazendo está vindo pra ca, vou embora também, cansei de descansar.

3 comentários:

  1. A cada 15 dias tenho acesso a net e corro aqui pra ver se tem novidades, e como sempre nunca me decepciono.

    Saudades...

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  2. Ei! Cade o texto do dia das maes?hehehe...

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  3. 'cansei d descansar' eu tava assim um dia desses,hahaha! Gostei desta expressao.

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