terça-feira, 15 de junho de 2010

tristes luzes coloridas

E ele disse adeus, olhando pro chão, fungando disfarçando o choro, com os braços cruzados se encolhendo no casaco, disse alguma coisa sobre incompatibilidade, sobre gênios, sobre personalidade, fez seu discurso lá mesmo, num parque de diversão, uma música alta tocava e embaralhava os pensamentos de Sara.
Foi caminhando até a saída do parque, as pessoas passavam por ela como se nada importasse, passavam felizes, as crianças com algodão doce na mão desfilavam exibindo sorrisos, os casais se abraçavam como se não houvesse gente por perto, os cachorros pedintes imploravam comida. E Sara andava com frio, as mãos no bolso do casaco, as lágrimas caiam incessantes por seu rosto e secavam antes de chegar ao queixo, uma brisa gélida corria por seu pescoço, não parecia mais haver música, as luzes dos brinquedos eram intensas e animadoras mas não pra Sara, ela neste momento se consumia de sua própria tristeza, uma falta de ar a deixava tonta, o frio não deixava-a respirar, o cabelo trançado ficava frio pelo vento, Sara se sentia sozinha, fria como mármore, abandonada como lixo, com desprezo pela vida caminhava sem parar, sem olhar pra tras pois lá ele estava, logo atrás, caminhando em silêncio também.
E ele? o que será que pensa ele? pra a deixar? abandonar, como se não importasse todo o tempo que se passou, como se as flores não tivessem existido, como se as músicas nunca tivessem tocado, como se as noites nunca tivessem sido vividas e sentidas. Simplesmente um fim? Como no meio do filme desligar a TV, não faz sentido...sentido algum...
Sara já na calçada caminhava com os olhos fixos nos azulejos, o frio parecia congelar a sua dor, e essa pesava dentro do peito como se a fizesse morrer aos poucos, as luzes dos postes pareciam fracas, os olhos embaçados, o choro insistia, e em sua mente as cenas se repetiam centenas de vezes, a flor sendo entregue, a carta sendo lida, os abraços sendo dados, o beijo roubado, a bala, o perdão, todos os chás....e cada lembrança doía como um tapa...
Finalmente o carro apareceu no outro lado da rua, o sereno o cobria, a noite feia escondendo suas estrelas, a lua a muito não queria aparecer, Sara entrou no carro, olhando o nada, tentando sumir. Ele entrou no carro e fitava o volante como se esperasse que este dissesse algo. O silêncio fúnebre preenchia o vazio das palavras que ambos queriam declarar. Lá fora uma leve chuva começava intensificando o frio, Ele deu partida no carro, parou na outra esquina, sem olhar pra Sara pediu para que ela parasse de chorar, o nó da garganta sem disfarce, os olhos úmidos, a boca trêmula, pediu um beijo sem explicação, Sara não nega beijos à Ele, pois Ele é Ele....são os olhos tristes que ela não resiste, são as musicas ruins que ela não suporta, são os beijos escondidos, as conversas intermináveis, as promessas tão jovens, as cartas tão novas...

E os dois deixam pra trás o parque que ao longe não brilha tanto, Sara tenta esquecer a noite, as crianças felizes, os casais, os brinquedos, as luzes....

Dormiu sozinha dividindo o frio com sua consciência, lembrando agora do passado com uma certa felicidade triste, com um sorriso salgado de lágrimas, um conforto sem sentido de uma cama fria.
Ele voltou em silêncio até sua casa, tomou um chá enquanto lembrava do rosto triste de Sara, deitou na cama fria e ligou a TV, as imagens passavam sem serem absorvidas por Ele, só conseguia pensar em Sara, mas como já disse Chico Buarque "não há dor de despedida que não se apague com a alegria da volta", ou algo do gênero....

Sara dorme tarde, e acorda cedo....deveria tentar parar de pensar.

3 comentários:

  1. Tadinha da Sara!
    Beijo da vó

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  2. Adorei o texto, muito interessante, sua invenção ou algum livro??? se for um livro me diga qual é que começo a ler amanhã mesmo..hehehe
    se for sua inveção me mande tudo desde o começo..
    Adorei, por mais triste que seja tem sua beleza e seu sentido.
    beijos.

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